Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

- Rubem Alves


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ZÉ TANGANHO


por Leonel Coelho

(1º lugar na modalidade de conto nos JOGOS FLORAIS DE AURPICAS Alcácer do Sal 2017)

Zé Tanganho, desengonçado. Imprevisível. Ajudado por cães, dois. O preto e o branco. Vistos de longe, os cães de Zé Tanganho, eram absolutamente dois, mas observados, assim de forma mais atenta, embora dois animais, não eram dois cães. O preto era de facto um cão, já o de cor branca, era uma cadela, portanto, convém para que possamos dar jeito à história deste desengonçado Zé Tanganho, guardador de cabras, desde que, daquela maldita guerra colonial voltou com um braço a menos.

Era Zé Tanganho muito falador, muito amigo de ajudar, sempre atento aos sinais de dor, condoído com a miséria da maioria dos seus vizinhos. Filósofo também. O braço que por lá lhe ficou foi o direito, e ele, que era o campeão do jogo da malha na aldeia, viu-se e desejou-se para se adaptar a funcionar com a mão esquerda e nós, homens, sabemos que há coisas que não dão jeito nenhum fazer com a esquerda.

Estes e outros desabafos saíam da boca do Zé Tanganho, desengonçado pastor, filósofo, maneta e dono de um cão preto e de uma cadela branca. É certo que a guerra lhe levou um braço mas não a bondade, tampouco a alegria de viver.  O Zé, que era desengonçado e maneta, pastor,  filósofo e tanganho, guardava cabras. Poucas mas boas. E às vezes dois, três e até quatro chibitos de cada parição. Gabava-se o bom homem que os queijinhos que a sua Damásia fazia, depois de ver desmamados os filhotes das cabras e mais a venda dos cabritos lhes faziam um jeitão, ademais que a sua reforma não passava de uns miseráveis trocos que a seita governante lhe enviava mensalmente, que ele ou a Damásia iam levantar aos correios, cada vez menos públicos e menos correios, a quilómetros de distância e semelhantes a lojas chinesas, onde vendem bíblias e cautelas, neste mundo em tão mudança, dizia ele com a sua proverbial bonomia.
 
Basicamente, tudo ou quase tudo ali na aldeia envolvia  Zé Tanganho. No barbeiro, no minimercado, no clube, nas reuniões da junta de freguesia, Zé Tanganho ía a todas. Havia uma matança lá estava o maneta, e ninguém espetava faca no bácoro como ele.   Depois era aparar o sangue certinho e quente no alguidar de barro onde uma boa mão cheia de sal o envolvia com a ajuda de uma colher de pau que em regra, uma mão feminina manejava. Dizem que o animal parecia nem sentir.

Certa vez, o Luís, filho da vizinha Perpétua, andava com uma dor de dentes que não lhe dava descanso nem de noite nem de dia, e um dos malditos dentes abanava, mas nada de cair. Zé Tanganho muniu-se de um fio, atou uma das pontas ao dente do rapaz e a outra ao trinco da porta e quando o puto se estava a começar a perceber o esquema, já o dente lhe tinha saltado da boca, arrancado pelo brusco movimento da porta a fechar-se.

Outra vez foi o burro do João da horta fundeira, caiu num barroco e ninguém era capaz de o tirar daquela aflição. O maneta abalou para a sede do concelho, trouxe os bombeiros e era uma vez um burro que caiu num barroco. E era assim o bom homem, sempre pronto para ajudar e esperto como poucos.

De outra vez foi abordado por Joel, o calceteiro da freguesia :
-  Amigo Zé, tenho lá uma figueira maninha que é preciso enxertar, se me pudesse tratar disso, ficava-lhe bem agradecido.

Oh homem, mas estamos em Maio, essa enxertia só se faz lá para Agosto. Escolha lá a enxertia que eu depois passo lá para fazer o trabalho.

E era sempre assim. Chegados aqui será bom declarar que o que aqui me trouxe, o botar o preto no branco, a opinião que o Zé Tanganho propaga, sempre que a ocasião se proporciona em redor do racismo ou dos racismos a que ele, opiniosamente chama de xenofobias. Em volta deste tema tão complicado e tão minado de alçapões e areias movediças, o nosso homem,  dispôs-se a propor ao João Manuel, presidente da junta de freguesia, a realização de um colóquio ou debate. – Oh homem, vê lá onde te metes, olha que o assunto é cabeludo, vê lá. Mas o salão da junta está ao dispor. 

- Então só preciso que me cedas o altifalante, para avisar o povo, que mandes dispor as cadeiras e uma mesa e que faças o favor de estar presente, e agradeço-te desde já.

Foi uma noite memorável, como nenhuma outra. Aquela jornada de esclarecimentos em que o Zé Tanganho só foi protagonista na logística, foi serena, casa cheia, curiosidade e participação, muitíssima. Tive a sorte de estar na terra nessa ocasião, por assistir a uma lição de sabedorias vinda de onde menos se espera, que me encheu de orgulho por pertencer àquela gente, tantas vezes incompreendida e até humilhada. Ali ouvi, naquela memorável sessão, moderada discretamente pelo senhor José Tanganho, afirmações que ainda hoje, passados um bom par de anos, guardo como guia de alguns passos que já dei e que espero me ajudem noutros que ainda almejo dar, neste maravilhoso mundo em tão mudança.

- Olha Zé, clamava o Porfírio, ainda há poucos anos, eu deixei de falar à minha cunhada Luísa, por ela ter consentido que a filha metesse um preto lá em casa, e agora, grande alegria sinto, quando o meu João está de cântaro e pucarinho com uma bela e trabalhadora preta. 

- E eu, dizia o Rafael da rua do saco, quando para aí vieram os ucranianos para a apanha da cereja e outros trabalhos, cheguei a corrê-los à pedra e houve quem lhe assolasse os cães.

- Sabem o que eu vos digo, continuava o Rafael, eles e outros de outras paragens, que para aqui vieram, foi um bem. Boa gente, trabalhadora.  Que tal como nós, ou a maioria de nós, e sorriu para o Zé Tanganho,  só têm uma boca e… dois braços.

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