“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

SEQUELAS DO TESSIQUEZAPE


Abdul Cadre
abdul.cadre@gmail.com


ROMPER BARREIRAS, como é óbvio e a própria palavra romper no-lo diz, implica violência, o que varia em cada acto é o grau e a justificação (ou a desculpa).
A violência está profundamente enraizada na natureza, na humanidade, em cada um de nós. Nascer é uma violência e morrer é-o também. Na pragmática, no acaso e na transcendência há uma constante de violência. Concebemos o parto sem dor para as nossas crias, mas não o soubemos inventar para a reprodução dos dias.
Olhando o passado distante, poucos se apercebem do facto de ter sido há milhares de anos que o homem rompeu a barreira do som pela primeira vez. Verdade, isso mesmo, há milhares de anos, sem qualquer introdução aqui de realismo fantástico. Há milhares de anos, quando era ainda impensável voar, coisa que apenas atribuíamos aos insectos, às aves e aos anjos, embora o morcego, que não pertencia nem pertence a nenhuma destas categorias, também voasse. E bem. E continua a voar.
Há milhares de anos, repetimos, quando não havia imagem sonhada sequer de aviãozinho de pau-e-corda, quanto mais de supersonorização.
Foi há milhares de anos quando, digamos que por desfastio ou necessidade de afirmação, inventámos o chicote. Dava um prazer dos diachos ouvir aquele tessiquezape, mas não foi pelo prazer dessa música concreta que o inventámos. Não. O que nos moveu — o que sempre nos move — foi pensar no que lucraríamos com o castigo do lombo das bestas e dos escravos submetidos aos interesses da nossa tripa e do nosso ócio. Ontem como hoje, é a tripa que mais ordena, que tudo condiciona.
À luz do que sabemos hoje, torna-se perfeitamente evidente que rompíamos então a barreira do som apenas do lado de fora, e é claro que, a partir daí, aperfeiçoámos imenso a técnica do tessiquezape. E não confundamos as coisas: nos seus voos entre Paris e Nova Iorque, o Concorde, entretanto falecido e descontinuado, mais não foi do que um fait-divers, porque afinal, bem lá no fundo, o que nos movia era o insofismável desejo do abate seguro e rápido do inimigo em voo, ou o seu churrasco, quando rastejante, não o devaneio transcrito nos jornais de chegar ao destino antes da hora da partida. 
Pois é: contrariamente ao que fingem pensar certas almas piedosas, do parto ao genocídio há o exercício constante da violência e toda a acção humana se caracteriza pela ruptura de barreiras reais ou imaginárias: o romper das águas. ´
Será uma maldição?
Não e sim! É a maldição da besta, porque ao homem, assim o presumimos, caberia tomar consciência dos medos escondidos nos seus porões, a desocultação dos seus atavismos e a sublimação dos seus actos pela iluminação do gesto. Palpita-nos, porém, que isto não seja muito bom para o share e seja demasiado prejudicial para o mercado...
E é de temer — sem dúvida que sim — que se confunda iluminação do gesto com o incêndio das cidades, à bomba ou por archote, e a iluminação do homem pela sua submissão a qualquer doutrina salvífica que pseudo-iluminados de ocasião decretem. 
Faz muito tempo, um judeu de origem portuguesa, nascido não se sabe muito bem onde, inventou uma consigna que se tornou emblemática para aquela que viria a tornar-se na mais ecuménica das revoluções triunfantes, mas todavia ainda não completamente realizada, dada a grande dificuldade da quase quadratura do círculo que é manter inseparáveis Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
É comum etiquetar-se de francesa esta revolução, mas não devíamos chamar-lhe assim. O ter-se tornado tão contagiosa deveu muito à ganância e à intrepidez napoleónicas, mas Napoleão não era originariamente francês, era corso. Burguesa, sim, é que ela foi e não deixou de ter presente o tessiquezape do nosso atavismo, como não poderia deixar de ser. Se beneficiamos hoje — e muito — dos seus aspectos mais positivos, tal não deve impedir de nos lembrarmos das grandes iniquidades perpetradas e de ter presente que toda a rebelião, como disse alguém, é um invento que serve para substituir uma forma de tirania por outra.
Por aquilo que já dissemos e pelo que digamos mais adiante, poderá inferir-se que somos pessimistas, mas colocamos aqui este parêntesis para afiançar que não. Aliás, como sabem, pessimistas e optimistas cabem na tal parábola do copo meio cheio e do copo meio vazio. Também se poderá pensar que achamos que o mundo esteja hoje pior do que no passado. Não está. Além disso, o homem está bem melhor e, sob o ponto de vista material, nunca esteve tão confortavelmente instalado quanto hoje. O que acontece é que chegámos a um fim de ciclo, as nossas instituições caminham para a putrefacção e ainda não arregaçámos as mangas para nos reorganizarmos para uma nova era e um novo mundo. Só isto, que não é pouco. 
Assim, que não se assustem os leitores, porque é evidente que, apesar da pesada atracção da nossa animalidade, progredimos alguma coisa no sentido da rejeição dos infernos que fomos criando ao longo da nossa caminhada. Todavia, descuidámos muitos valores que pareciam conquistas seguras. Por exemplo, falar em honra, respeito e verdade provoca comummente o riso e o desdém; são conceitos incomportáveis para o discurso em uso, o discurso que o mercado determina e a apatia consente.
Quanto ao que progredimos, poderíamos dizer que do atavismo reproduzido na tradição oral, da pragmática da tribo, dos tabus, da união pelo sangue e pelo chefe, das entoações mágicas e guerreiras, da agressividade de sobrevivência e domínio progredimos para a História, a Filosofia, a Religião, a Política, a Poesia, o Canto, a Dança, o Desporto, mas do atavismo guerreiro forjado na irmandade e na entreajuda, da hospitalidade, da caridade, da religiosidade, da força física, da inteligência emocional, regredimos ou subvertemos perigosamente para a destruição massiva, o individualismo, a competitividade, a bastardia, o condomínio fechado; desdenhámos o sem-abrigo e enaltecemos o mercenário, vergámos a cerviz ante o poder do dinheiro, mergulhámos no estranho fanatismo da indiferença, detestámos as manhãs e inundámos as noites de néon...
E vejam como, para além de subsistir por toda a parte a velha escravatura stricto sensu, surgiram novas formas de escravatura e de dependência com características feudo-vassálicas: o trabalho temporário, o desemprego técnico, o migrante em fuga, os recursos humanos descartáveis...
Recursos humanos! Como se humano fosse coisa.
Em nome de um sistema que a si próprio se nega, estamos a tornar o mundo um lugar de ostracismo habitado por supranumerários; uma selva pós-moderna com selvagens reciclados, tudo isto embrulhado em apatia e justificado pela cibernética, porque só a cibernética pode explicar que é, aquilo que não é. A montante e a jusante da nossa apatia, os incendiários de sempre põem todo o zelo em que não falte nunca a devida ração de medo. Que sejamos avestruzes é o seu descanso, que não nos interroguemos sobre os nossos direitos de cidadania, a nossa liberdade, a nossa realização e a nossa felicidade é a sua garantia de conservação do poder, de manutenção dos privilégios.
Se a decadência de todas as instituições se acentua a cada dia que passa neste tempo que apodrece, que legitimidade sobra aos governos, sufragados ou não?

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