"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz"
Luís Santos


sexta-feira, 10 de março de 2017

Morreu Natália Pais


 Para a nossa  geração e para muitas gerações que se cruzaram e cruzam nas pontes  da multidisciplinaridade da Arte e Educação é um exemplo, uma memória de criatividade Natália Pais do Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian uma das  grandes impulsionadora das Ludotecas em todo o país .Por isso partilho hoje com a Conceição (Conceição de Oliveira Lopes) este testemunho.
A Natália trocou as voltas à vida e aproveitou a luz da lua cheia e viajou para a eternidade. Partilho convosco o testemunho que eu e o Gil escrevemos para o livro que a filha Helena Carqueijeiro preparava para lhe oferecer no dia dos seus 80 anos amigos. 22 de Março.
"Natália Pais - A princesa peregrina das crianças, dos pedagogos artistas, dos artistas pedagogos e dos brincologos “
“A criança quando nasce é artista. O pior é quando cresce” 
Pablo Picasso |
A educação estética é o caminho para o desenvolvimento dessa condição de Ser do Humano”
Conceição Lopes
Testemunhos de homenagem à nossa querida amiga Natália Pais, Jardins suspensos com lago no Centro, peixes transparentes como os dias da educação estética, da arte para crianças e das ludotecas, peregrina, da formação de pedagogos artistas e de artistas pedagogos.
Natália Pais, o seu percurso de vida, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Centrinho, assim carinhosamente chamávamos ao Centro Artístico Infantil, e no Serviço de Educação, está de certo modo exposto, no livro “ E a Educação Estética onde fica – conversas sobre arte educação”, editado em 2015 pelo Serviço de Educação da FCG.
Peregrina, menina, fez milhares de quilómetros a compartilhar a palavra e a fazê-la compreender com clareza e simplicidade, na formação de educadores e professores de todos os níveis de ensino, da creche, ao Jardim de Infância, do ensino básico ao secundário e ao universitário. A educação estética é a sua militância experiencial. As crianças, a arte, a ludicidade, a ciência estão de mãos dadas, na singularidade do seu pensar, interagir e intervir. Inovadora, empreendedora com visão de futuro, com empenho, responsabilidade e compromisso, perante si e os outros, a Natália Pais é defensora da cultura quotidiana das pequenas coisas e dos pequenos projetos que ajudou a tornar grandiosos.
"A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial.
A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível."  
Camille Paglia, Imagens cintilantes” (captado web, 2017-03-04)
Artesã sempre à frente do seu tempo, co-construindo futuros no presente, as equipas são o seu meio natural no trabalho. Estudiosa, apaixonada e apaixonante. Elegância bizarra como a arte contemporânea. Docemente criativa, no coração do encontro permanente da arte -educação que tornou indivisível. A militância em torno do pedagogo/a artista e do artista pedagogo/a não lhe dão descanso. Os seus argumentos são sustentados pelo estudo continuado dos clássicos da educação e da educação pela arte, portugueses e estrangeiros. Autores, muitos e diversos, fazem parte da sua biblioteca e continuam à mesa dos seus olhos, na mesas de casas em que habita. E, a sua casa é o mundo. Habitá-lo é o seu lugar residente, ora itinerante, ora radiante. Esta menina, peregrina, mulher bela, não pára. A vida é para ser vivida até ao tutano, na substância das coisas com calma para ser saboreada, compreendida e, depois, compartilhada. Alma sorridente ao tono das ondas do oceano vibrante. Psicopedagoga brilhante, a dança baila no seu interagir. Investigadora, autora, gestora flexível, curiosa no entendimento dos mundos de vida. Astuta, amiga e flexível, competente, atenta, ninguém lhe fica indiferente. Em tudo o que toca faz multiplicar, qual enzima que propaga, confiança estimulante, alegria, dádiva, discernimento, bases da motivação extrínseca que sabe alimentar, de modo in—visível, a motivação intrínseca que reside dentro daqueles que têm o privilégio de com ela trabalhar. 
A sua vinculação à FCG começa no centro de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, mais tarde, no Serviço de Educação, tem a seu cargo a assessoria e intervenção nos níveis de educação básica. Foi aqui que peregrinou como um arauto. EU VOU! EU ESTOU! ASSIM EU SOU! Contem comigo, lá estarei!
A ligação a Madalena Perdigão reforça os laços e o desenvolvimento da arte educação, cujo primórdios vinham do Conservatório Nacional com o curso de educadores pela arte, projeto de Madalena Perdigão. O Centro Artístico Infantil da FCG é a grande expressão dessa ligação. Lugar de encontro de crianças, de todas as idades, de artistas, educadores, professores, lugar de formação, intervenção, investigação-ação de afirmação dos binómios que foi estabelecendo, pedagogo-artista e artista-pedagogo. O calendário das ações do Centrinho, nomeadamente, exposições, cursos, oficinas, animações, dinamizações, focalizava.se em temas do quotidiano experiencial: - “As Festas”; “As Flores”; “Cidade Real-Cidade Imaginária”; “A minha Rua”; “Escrever é Comunicar”; “Animais da Quinta”; “Som e Silêncio”; “Aventura nos Jardins da Fundação”; “Semear é Lançar Sonhos à Terra”; “Plantar é Devolver à Terra os Sonhos da Semente”; “Coisas que as Crianças Guardam nos Bolsos”; Olhar Picasso” ; “Dos Sapatos ao Chapéu”; “Jogos e Brincadeiras”; “ O Cortejo do Galo”; “ Trago a Primavera no Bolso e Papagaios no Olhar”; Arte-Ciência e computadores” foram alguns, entre muitos outros eventos do Centrinho, sempre em atividade inclusiva, intergeracional e com forte participação diária.
O Centrinho foi , ao longo dos anos, um lugar feliz, uma referência nacional e internacional. Há uma memória que não esquece e se encontra nos registos do Serviço de Educação e na mente de todos os que tivemos o privilégio de lá nos encontrarmos, fazer parte da equipa, frequentar os cursos, oficinas e, sempre, a presença ativa das crianças. Hoje, algumas dessas crianças, com cerca de 40 anos, ainda falam do que lá viveram, compreenderam e recordam com entusiasmo o que ali se fazia acontecer. Memórias que resistem ao esquecimento.
O Centrinho com a Natália Pais e as suas equipas deixaram rasto e lastro na educação estética em Portugal. A Ludicidade - educação - estética-arte –cultura – tecnologias – ciência, conservação da natureza, numa visão transdisciplinar e interdisciplinar atravessaram os vários projetos, num período em que, ainda, Portugal não respirava de modo natural e generalizado a todas as crianças, estes campos da educação estética.
As ludotecas foram o outro dos empreendimentos da Natália Pais. EU VOU! Em novas peregrinações foi compartilhando os estudos que fazia e recolhia de fóruns internacionais. Peregrinando Portugal de lés a lés, muitas malas de viagem carregadas de livros, brinquedos, jogos, diapositivos, e as suas roupas, elegantíssima se apresenta. Quase sempre de comboio. Numa das viagens à Universidade de Aveiro, ainda em Santa Apolónia roubaram as malas, só demos conta à chegada. – Onde estão as malas? A resposta à situação preocupante foi rir e encontrar solução ao problema a resolver. No dia seguinte fez a conferência e a workshop, como se nada tivesse acontecido. Outras vezes, como nas curvas e contracurvas para Bragança, ia de carro. Onde era preciso a Natália Pais lá estava, em Escolas, Universidades, Associações Populares, Hospitais, Autarquias, Museus. A Natália foi a mentora pioneira das Ludotecas e da sua disseminação em Portugal. Tudo isto são expressões manifestas da pessoa que a Natália é, que optou SER e Existir assim, deste modo, na convivialidade connosco.
A Natália tocou cada um de nós e contribuiu e contribui para o nosso próprio percurso. Pela sua maneira de ver o mundo de forma integradora e positiva; pelo seu entusiasmo contagiante; por projetos inovadores; pela determinação e humor com que defendeu as suas convicções; pelo seu poder de ligar, criar pontes entre pedagogos e artistas, entre ideias, coisas e as pessoas; pela sua capacidade de amar; pela capacidade de excitar, pela sua elegância, exuberante, glamorosa, o seu corpo é o altar dos rituais de celebração quotidiana da vida; pela sua atitude de disponibilidade para vislumbrar o que outros não viam; pela sua alegria; pela sua capacidade brincante e brincalhona; pela sua competência em tudo a que se entrega, sem esquecer a sua atividade como psicóloga clinica que exerceu durante largos anos em consultório, no acompanhamento e orientação de crianças, jovens e famílias, por tudo aquilo que mais poderíamos acrescentar, a Natália é um ser de luz, compartilha todas as suas descobertas. Quem as queira desenvolver ela apoia e acompanha. Os seus olhos grandes atentos a cada pormenor, capta a realidade , acrescenta-lhe a sua compreensão reflexiva, elegantemente questionante e, em conjunto, coloca-se ao serviço do bem comum. Contem Comigo! Eu VOU!
Agora que a Natália vai fazer 80 anos em Linhas soltas, para voltar à memória que não esquece da celebração do 1 de junho, Dia Mundial da Criança em que o Centrinho aberto à Cidade, também se abria aos Jardins e ao Lago da Gulbenkian para receber centenas de crianças de todo o país, e uma mão cheia de artistas de todas as artes e estilos e a Natália não cedia à vulgaridade que hoje domina a criação artística para crianças.
Flor do Tempo e do Templo que é a Natália Pais, sublinhamos que aos 80 anos ela é referência primeira de centenas de Centros de Arte para crianças e de Ludotecas, que nasceram por todo o país a partir das Aulas Públicas que dava, ela e por vezes as suas equipas, de onde destacamos, Arquimedes Silva Santos (psicopedagogia da educação pela arte), João Mota (teatro/drama) Eurico Gonçalves (artes Plásticas), Ana Ferrão (Música) , António Torrado (literatura para crianças) entre tantos outros, pedagogos artistas e artistas pedagogos, cada um a seu modo, sob a visão, dedicação e coordenação da Natália Pais concretizaram a Missão da Fundação Calouste Gulbenkian, de Servir o bem comum apoiando e desenvolvendo a Educação Estética em Portugal.
Princesa Peregrina, reconhecemos em nós, as raízes do teu peregrinar em torno do centro impulsionador da lembrança do que fazes e do que continuarás a fazer. Gratos te ficamos com o coração.
Aveiro, 5 de Março de 2017-03-05
Conceição Lopes | Prof. Associada c/ Agregação da Universidade de Aveiro | Dep. Comunicação e Arte
José Gil | Professor-Adjunto  do Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação

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