"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz"
Luís Santos


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dilucidações


por Abdul Cadre


A mente humana – objectiva e subjectiva – é, em nós, uma limitação da mente total e absoluta a que os rosacruzes chamam de Mente Cósmica. É por virtude desta potência e disposição que sentimos infundidas em nós todas as capacidades mentais que nos caracterizam como humanos. Um pouco mais aquém e eramos bichos, na melhor das hipóteses animais de companhia.

Há quem chame à mente objectiva mente concreta e à mente subjectiva mente abstracta, o que me parece nomenclatura pouco feliz. Todavia, é bom que se saiba que não existem tais mentes como realidades separadas, trata-se do entendimento de funções, de funcionalidades, porque a mente é só uma, não fraccionável. As ondas não fraccionam o mar, levam apenas a que a nossa atenção se aperceba dos pormenores.

Funcional, porquê? Vejamos: a mente objectiva permite-nos atravessar a rua sem sermos atropelados, mas é um instrumento limitado de simbolização, pois só pode socorrer-se do que já foi, usando com a eficácia possível o pensamento dedutivo, sendo por isso simplesmente racional, nem mais se lhe pode exigir; a mente subjectiva, por outro lado, alimenta-se das sensações, das emoções, das intuições e dos sentimentos, usando privilegiadamente o pensamento indutivo e o pensamento analógico.

Há racionalistas empedernidos que se vangloriam de usarem exclusivamente a mente racional. Iludem-se. Felizmente para eles – e para todos nós – tal não é possível. A sê-lo, cuidado, que a inteligência artificial está aí, disponível para as substituições.

in, Declinações de Rosa (Blogue)
Ciências Antigas por Abdul Cadre
segunda-feira, novembro 20, 2017
http://abdulcadre.blogspot.pt/ 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Duetos luso-brasileiros


Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos



Roseiral

A Rosa é sem porquê,

se tem água, se tem luz
força que a rasga na terra
cresce e floresce, radiosa

metida no centro da cruz
véu de endeusada fragrância
redenta e rebenta, cheirosa

em janeiro faz milagres
em novembro dá poema
e ei-la em nevoeiro, encoberta

uma prenda templária
uma rosada cristianice,
um diz que disse.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
17

Ao que parece, a aventura da Humanidade começou em África. 
Sabe-se que primatas que viveriam nas árvores e que podem ter sido os antepassados da nossa grande família – salvo seja a expressão – terão existido fora do território que actualmente constitui esse continente, mas os vestígios mais antigos que se conhecem de seres bípedes e a quem é possível atribuir um lugar na nossa árvore genealógica, pelo menos até ao momento, só ali se encontram e daí a afirmação do primeiro parágrafo. 
As razões pelas quais tais animais terão passado da experiência arborícola para a vida na superfície permanecem obscuras, contudo, conseguimos induzir factores extrínsecos e intrínsecos à própria biologia para que tal tenha acontecido. Factores de ordem climática que possam ter provocado alterações nos ecossistemas, com a redução das florestas e o avanço das savanas, ter-se-ão combinado com a selecção natural provocada pelo sucesso reprodutivo daqueles que melhor se adaptaram a esses novos condicionalismos de existência; é provável que os machos mais hábeis na postura e na marcha erecta tivessem mais facilidade em alimentar as fémeas e respectivas crias e, com isso, deixando maior descendência com tais características genéticas, tenham contribuído para a afirmação de uma(s) espécie(s) de primata(s) capaz(es) de sobreviver(em) em diversos ambientes. 
Seja como for, se, por ventura, isto sucedeu em outras parcelas do planeta, ainda não foram encontradas quaisquer provas. Foi em terras africanas que se encontraram os mais remotos testemunhos físicos dessa parte da nossa história, quer sob a forma de ossadas mais ou menos completas, quer por obra do feliz acaso que registou as pegadas de um grupo de indivíduos que há três milhões e meio de anos caminharam, como qualquer um de nós o faria, sobre uma camada de cinza. 
A verdade é que há volta de quatro milhões de anos atrás terão vivido alguns grupos que, para além da identidade genética descrita, faziam uso de utensílios tanto para a captura como para o tratamento de alimentos. 
Estamos a falar dos Australopitecos que terão evoluído separadamente em dois ramos, o robustos e o grácilis que se viriam a extinguir há mais ou menos um milhão de anos. 
Provavelmente jamais se saberá se foi entre eles que se desenvolveram capacidades como as da linguagem ou do pensamento lógico, mas assim não deve ter sido, pois avaliando pelas modificações operadas nas pedras que usaram como ferramentas e pela leitura das informações ósseas até agora encontradas e identificadas, tudo indica que a boa ventura destes animais terá durado um número incrivelmente elevado de gerações sem que significativos acréscimos culturais tenham sido produzidos. 
Pela análise dos dentes encontrados e pelo que nos permitem inferir quanto à alimentação praticada, tudo aponta para que a primeira daquelas ramificações ter-se-á especializado mais numa dieta vegetal, ao contrário dos outros manifestamente omnívoros. 
Por enquanto é impossível destrinçar se foi no contexto desta espécie ou de qualquer outra de que ainda não tivéssemos conhecimento que surgiram os seres que, pelos volumes cranianos, os antropólogos apelidam já como homo. Na primeira hipótese, a passagem, se me é permitido este termo, dos australopitecos ao homo, terá seguramente ocorrido por via da mutação genética e depois potenciada pelas leis darwinistas da evolução. Mais uma vez, os que melhor estavam adaptados a alimentarem-se e a protegerem-se melhor duraram mais e tiveram mais sucesso reprodutivo o que terá contribuído para que estes indivíduos, por um lado, tenham sobrevivido àqueles de quem, afinal, descendiam e, por outro lado, concomitantemente tenham confluído, pela concorrência exercida, para acelerar aquele já referido processo de extinção. 
Com os conhecimentos que hoje em dia possuímos, é empiricamente sustentável dizer que África é o berço da Humanidade, não só por ter sido lá que surgiram os nossos mais recuados ancestrais, tal como, assim o veremos mais tarde, igualmente viria a ser de lá que partiram em migrações sucessivas, tanto os avós dos sapiens sapiens como estes, propriamente ditos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (281)

As Musas Inquietantes, De Chirico, 1925
Óleo sobre Tela, 97x67 cm

Giorgio De Chirico nasceu em Volos, Grécia, em 1888 e morreu em Roma, Itália, em 1978. Estudou em Atenas. Foi para Munique que era na altura um viveiro da moderna inquietação artística dessa primeira década do século XX. Entre 1911 e 1915 viveu em Paris, onde despertou a admiração de Apollinaire o poeta que dava o máximo apoio ao cubismo e às vanguardas artísticas dominantes. Durante a Primeira Guerra Mundial retornou à Itália. Nesse período, na companhia de Carrá e Morandi, introduziu ideias de uma pintura metafísica, que interrogavam as dimensões do conhecimento.
Viveu nos Estados Unidos, entre 1935 1938, onde a sua pintura atingiu valores inesperados. 
A partir de 1944, instala-se em Roma onde pinta até à data da sua morte, em 20 de Novembro de 1978.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 18 de novembro de 2017

José Flórido


Creio que se deve adquirir, cada vez mais e melhor, uma perspetiva holística da realidade. Daí que a atividade criadora exija que o ser humano se esforce no sentido de usar todas as suas faculdades, desenvolvendo-as harmoniosamente em todas as direções. O que só é possível, evidentemente, desde que se reconheça primeiramente a relação de interdependência entre todas as coisas. É por isso que observo com alguma desconfiança as supostas vantagens de certas especializações, send...o até costume dizer-se, com alguma ironia, que um "especialista é alguém que sabe muito de pouca coisa".
Ora, apesar de já vivermos numa era, designada por Pós Industrial, em que o trabalho físico é realizado, na sua maior parte, pelas máquinas, e o mental pelos computadores, não deixa no entanto de ser interessante refletir no conteúdo do seguinte apontamento:


"Quando Henry Ford começou a fabricar um determinado modelo de automóveis, eram necessários 7882 trabalhos especializados. Ford observou então que, desses 7882 trabalhos especializados, 949 requeriam homens fortes, aptos e praticamente perfeitos fisicamente; 3338 requeriam apenas homens de força física vulgar, podendo a maior parte dos restantes ser executados por mulheres ou por crianças crescidas. O que levou Henry Ford a afirmar friamente: "verificámos que 670 desses trabalhos podiam ser desempenhados por homens sem pernas; 2637 por homens só com uma perna, 2 por homens sem braços, 715 por homens só com um braço, e 10 por homens cegos."
De onde se conclui que uma tarefa especializada não exige uma pessoa inteira. Mas apenas uma parte."


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Erva-formigueira


Amigos,

Um destes dias fui à Herdade do Alto do Pina (Poceirão) apanhar espargos silvestres para os incorporar no Almoço de Natal da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, a realizar no próximo dia 16 de dezembro. Colhi uma quantidade razoável! Aproveitei também para apanhar saramagos para um delicioso esparregado. O almoço vai ter, de novo, uma componente importante de ervas comestíveis para suscitar curiosidades e educar os paladares dos comensais habituados às artificialidades que o marketing coloca nos supermercados. De repente, vejo uma ramalhuda erva-formigueira (atenção que esta não é para comer) e logo pensei, ela vai ser a protagonista da próxima lição de fitoterapia.
Abraços!

Miguel Boieiro


Numa pequena propriedade meio abandonada brotou, em interstício do empedrado, uma erva-formigueira. Passados alguns meses, quando lá voltei, a pequena erva tinha-se transformado numa enorme moita, reproduzindo-se vigorosamente por vários locais. Podemos assim, desde logo, deduzir uma das características desta planta mexicana: a produção de milhares de sementes o que origina a sua rápida proliferação como espécie infestante. Outro atributo marcante é o seu odor indefinido, mas inconfundível. Há quem diga que cheira a formigas esmagadas e daí o nome que se dá à planta. Outros mencionam que deita um aroma que parece uma mistura de petróleo, menta, cânfora, segurelha e limão. De qualquer forma, a fragrância é muito intensa e original.

Para que não haja confusões, uma vez que o termo popular “erva-formigueira” aparece atribuído a diferentes plantas, em várias regiões do mundo, esclareço que me estou a referir à Chenopodium ambrosioides L., planta da família das Quenopodiaceae, nativa da América tropical, que se aclimatou com facilidade em todas as regiões subtropicais e temperadas. Sendo bastante utilizada pelos ameríndios como planta medicinal, foi trazida para a Europa pelos espanhóis no século XVI e logo tomou várias designações: epazote, chá-do-méxico, chá-dos-jesuítas, erva-de-santa-maria, erva-vomiqueira, formigueira, lombrigueira, mentruz, quenopódio, ambrósia, etc.

Crê-se que a reputação desta planta provém do facto de afugentar ou eliminar parasitas, outrora muito comuns nas habitações e povoados: pulgas, piolhos, percevejos, carrapatos, moscas …

Em traços largos, podemos descrevê-la como herbácea anual ou perene, de raízes brancas, compridas e oblongas. Os seus caules são vigorosos, angulosos e ramosos, possuindo sulcos longitudinais pouco profundos, podendo atingir um metro de altura. As folhas são ascendentes, oblongo-lanceoladas, irregularmente dentadas e agudas com pecíolo curto. As flores aglomeram-se em espigas terminais e são brancas ou levemente esverdeadas e pequenas (1 mm de diâmetro). Os frutos, também muito pequenos, são aquénios ovóides achatados, completamente envoltos nos respetivos cálices, dando sementes pretas, brilhantes e lisas. Com bom desenvolvimento vegetativo, um só pé pode produzir dez mil sementes. Toda a planta, sendo intensamente verde, avermelha um pouco, quando as sementes amadurecem.

Os seus principais constituintes químicos são saponinas, taninos, sucos amargos e um óleo essencial, cujo componente determinante se chama ascaridol. É ele o principal responsável pelas propriedades anti-helmínticas da erva-formigueira (capacidade de eliminar os parasitas intestinais). O óleo, amarelado e de aroma penetrante, serve de base a muitos medicamentos e aplicações veterinárias.

Para além da propriedade antes citada, a planta é carminativa, tónica estomacal, emenagoga, antiespasmódica, vermífuga, diurética, cicatrizante, analgésica, antirreumática e antiasmática.

Outrora abusava-se em demasia, quer da erva, quer da sua essência, ocorrendo frequentes intoxicações devido ao ascaridol. Hoje em dia continua a consumir-se a erva-formigueira mas com os devidos cuidados e não ultrapassando as doses prescritas pelos especialistas.

Algumas receitas clássicas:

Para eliminar vermes intestinais, melhorar as funções digestivas, aliviar a asma e as perturbações nervosas – tomar três chávenas por dia de uma infusão de 20 g da planta verde num litro de água.

Para pernas inchadas, varizes, afeções da pele e picadas de insetos – aplicar cataplasmas das folhas cozidas com sal marinho.

Tendo sempre presente, as contra-indicações provocadas por doses elevadas, lembra-se que a infusão da erva-formigueira era, noutros tempos, tomada com regularidade como sucedâneo do verdadeiro chá.

Atualmente estuda-se, com acuidade, o seu efeito inseticida contra melgas e mosquitos e a aplicação em agricultura biológica para combater determinadas pragas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Cada vez mais me convenço que o Ocidente não soube ganhar o mundo que se seguiu à queda do comunismo. 

Não é verdade que aqueles regimes tenham caído por efeito de uma acção directa e imediata dos países ocidentais justamente visando tais propósitos, se bem que a presidência de Ronald Reagan tenha colocado a então União Soviética perante desafios no plano militar e geo-estratégico que vieram pôr a nu as fragilidades tecno-económicas daquela super-potência. 
Concretamente, o movimento que levou à queda do muro de Berlim e à substituição dos partidos comunistas no poder em todo o bloco leste, iniciou-se por obra das políticas de abertura do senhor Gorbatchov que, ao tomar consciência do atraso estrutural dos níveis de desenvolvimento dos soviéticos, identificou os vícios do sistema e pensou que as respostas para os mesmos seriam alcançadas por via da abertura que ficou conhecida pelos vocábulos de perestroika e glasnost. A realidade foi que aquele universo simplesmente implodiu, caiu por si pois, se por um lado a maior liberdade política serviu para a afirmação de reivindicações várias e de vária índole, quer a nível da união, quer das repúblicas, por outro lado, a liberalização económica rapidamente estiolou o anterior tecido produtivo que não tinha como se adaptar a dinâmicas internas e externas mais concorrenciais. E as populações dos países satélites aproveitaram para apearem os comunistas e se subtraírem à lógica de uma das polaridades da guerra fria. 
Isto foi o que se passou e do lado ocidental estiveram bem aqueles que interpretaram as políticas de confronto, como o foram os casos do já referido Presidente dos Estados Unidos e da Primeira-Ministra britânica à época. Mas faltaram os democratas, isto é, faltaram os homens capazes de perceberem que tão importante como a derrota da tirania seria a vitória do estado de direito naqueles territórios e todo o apoio necessário à reconstituição daquelas economias e ao desenvolvimento entre aqueles povos, de modo a que a democracia aí pudesse ganhar sementes e florescer. Só que o drama da nossa contemporaneidade está no défice de democratas e, apesar da retórica que se ouviu, no contexto das democracias ocidentais, não surgiu uma única figura com estatura suficiente para encabeçar tais políticas. 
E o resultado foi o que se viu. 
Sucesso na transição para o capitalismo nos estados com maiores ligações históricas ao centro da Europa e vitórias mafiosas nos restantes, com um lastro de guerras e misérias que mais não serviram que de combustível para os fogos de todos os inimigos do mundo livre. 

Este é um dos contextos em que devemos compreender a guerra mundial em que, actualmente, o terrorismo da Al-Qaeda procura prostrar as sociedades do nosso contentamento. 



Bolas! Uma pessoa tem dois diazinhos de folga e fica logo atolada na volta. 



Dickens, os contos e as parábolas, a contemplação da fé no ser humano. 
Como é bom ler os “Contos de Natal” quando, do lá de lá das vidraças do conforto, o campo se deixa atapetar pela alvura que, tão serena, cai do céu. 



Hoje os alunos reataram com exercícios sobre palavras e números que, em definitivo, entraram no domínio do início das contas de somar e diminuir. 



Este problema dos barcos espanhóis com licenças para pescarem na ZEE dos Açores é o corolário de uma incapacidade dos nossos governos para defenderem os interesses portugueses no sector. Naturalmente, estou a falar em termos da nossa presença na União Europeia. 
Agora nada há a fazer. Deixámos que se menorizasse a importância daquela actividade no contexto da economia nacional e aceitámos que nos reduzissem sucessivamente a frota e as quotas de pesca. Não espanta pois que os outros se apresentem capazes de explorarem os nossos recursos. 
É claro que isto nunca incomoda a nossa classe política que lá vai vivendo de vacuidades. 



Há frio na noite
é o que nos dizem as estrelas que brilham no céu. 


 Alhos Vedros 
  26/02/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Dickens, Charles, CONTOS DE NATAL, Prefácio do Autor, Tradução de Lucília Fílipe, Público, Lisboa, 2002

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (280)

Aldeia de Voisins, Pissarro, 1872
Óleo sobre Tela, 46 x 55 cm

Camille Pissarro nasceu na ilha de St Thomas e foi um grande pintor impressionista de sua época. Faleceu no dia treze  de novembro de 1903 e deixou obras de grande valor que marcaram a história da arte. Foi o primeiro a reconhecer o imenso potencial de Van Gogh mesmo antes de produzir o melhor da sua obra: "Ou ficará doido ou deixará todos muito atrás", prognóstico que se tornou verdadeiro duplamente.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 11 de novembro de 2017

Poluição em nova deli, por Ganesh Jha


Este é o meu vídeo-projeto submetido para o curso A2 de português que decorreu no Instituto Camões, Embaixada de Portugal em Nova Deli. Estou cobrindo diversos tipos de poluição em Nova Deli através deste vídeo.
Ganessh Jha

(Nota do editor: Tivemos conhecimento deste vídeo no Grupo Diálogos Lusófonos, coordenado por Margarida Castro, com o qual temos mantido parceria ao longo dos anos. Posteriormente, obtivemos autorização do autor para partilharmos esta sua preciosa produção editada no You Tube.)





quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dois Poemas de Manuel (D'Angola) de Sousa

1.

“Entre Tuneis E Furos Dérmicos À Sensibilidade Cerebral Grotesca…”

Esgravato múltiplas dimensões sem nexo
Escavo complexas ocasiões dissimuladas
Espreito em todas as fendas expostas ao ar
Descubro de imediato o que é encoberto
Exponho a nudez linguística a mastigar

Dispenso aplausos sem qualquer fundamento
Deixo-me estar na minha pérfida languidez
Mostro partes carnais aos olhos indiscretos
Leio com a voz exaltada a poesia ida há muito
Uso o lirismo da Idade Média para fins grotescos

Liquefaço a fala para que não soe tão sólida
Atrapalho-me na dicção de palavras difíceis
Arrecado atrás da orelha uma parelha de pulgas
Parto de seguida particularmente desgarrado
Nem se me passa pela cabeça onde ir depois

Levo vã pressa e uma azáfama desmedida
Esqueço que trago comigo a fita métrica
Trepo às paredes tão logo travem a escalada
Subo sei lá para onde e sem nenhuma ideia
Aproveito que seja o destino a levar-me ao colo

Saltito que nem um saltimbanco deveras solto
Salto com milhões de molinhas de isqueiro nos pés
Analiso as plantas em busca de raízes das origens
Prematuramente cavo um buraco na fuselagem
Furo a primeira camada dérmica bruta ao cérebro…

Estimulo rios de tinta a correrem sem o entrave de veredas ou lá o que fôr!...

Escrito em Luanda, Angola, a 6 de Novembro de 2017, por Manuel (D’Angola) de Sousa, com o fito de inspirar e recriar sensibilidades criativas e criadoras, seja de arte, seja de novas invenções ou seja do desenvolvimento tecnológico e socio-filosófico e harmonioso de toda a Sociedade Humana em geral e ao nível Global Terrestre…

2.

“Saltitando Magicamente De Presságios Em Premonições”

Saltito entre presságios e premonições
Fico porém com perguntas crescentes
Estabeleço metas e objectivos vazios
Arrisco jogar uma cartada de magia
Simulo acontecimentos inaceitáveis

Magôo os dedos dos pés à martelada
Pontapeio a maldade com muita força
Lanço-me para dentro de uma rede
Sou capturado como um pescado qualquer
Tenho asas e não sei contudo voar

Saio de mansinho das indefinições
Largo tudo e caio fora da ocasião
Abandono o barco antes que afunde
Incendeio-me igneamente com facilidade
Acendo num autêntico fogo-fátuo-de-artificio

Entretenho-me a ouvir os pios de aves
Canto junto com os pássaros no alto
Vibro comungando o gosto pela vida
Tremo quando a terra estremece o solo
Arrepio-me da cabeça à ponta das unhas

A realidade é surrealisticamente linda
São poucas as dúvidas de sua existência
Repouso sobre o ombro enquanto discirno
Tento empreender a compreensão absoluta
Há algumas questões entravantes que não percebo bem!…

Meto-me com assiduidade a destrinçar os códigos inteligíveis do todo…

Estudar e discernir, senão são dos maiores atributos da curiosidade Humana, face ao saber e ao conhecimento requeridos, para que possamos descobrir e descodificar o absoluto da realidade existencial, com certeza, serão dos principais motivos que nos fazem evoluir, seja como colectividade ou seja no formato individual ou pessoal. A este processo, poderemos acrescentar a evolução civilizacional e a criação e a inovação filosofal e da inteligência…

Escrito em Luanda, Angola, a 5 de Novembro de 2017, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Homenagem à Inteligência Humana e a todas as restantes que, por esse Universo, possam existir, em especial, a Inteligência Cósmica, que a todo o Universo imbui e controla, mantendo-o em ordem estrutural e orgânica…

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

AS FÉRIAS DE CARNAVAL

Carnaval em Bragança, onde a família passou estes dias em toada de recuperação das forças físicas e anímicas, graças à boa hospitalidade do Carlos e da Tuxinha que nos receberam em sua casa e nos presentearam com os mimos da boa companhia e dos passeios a que se adicionaram os bons paladares e os encantos da vista de um salão aberto em vidro para um lameiro que as nuvens trataram de alindar com a neve e onde uma cegonha apareceu, em busca de alimento. 
Dias frios em que fortes nevões nos remeteram para o conforto das salas aquecidas, num Domingo que, para os adultos, foi feito de conversas e para os miúdos cheio de jogos e brincadeiras, pois os meus pardalitos entenderam-se às mil maravilhas com o Leonardo, o filho daqueles amigos. 
E como é bonito ver a Matilde integrar-se no convívio com os mais velhos, como se a diferença de idade para com o rapaz não perfizesse os dedos de uma mão. 
As miúdas ficaram encantadas por brincarem na neve e, claro está, não deixaram de fazer o boneco da praxe à entrada da aldeia de Montesinho. 
E também elas tiveram a experiência de passearem enquanto os flocos caíam sobre os seus anoraks e as ruas da cidade. 

E os montes, pelos vales que o Sabor vai rasgando, aqui e ali, rosados pela urze 
ainda que o vento, por fora, faça os embranquecidos pinheiros pingarem, numa mistura da ressaca das ramadas com o constante gargalhar das águas correndo entre as pedras. 



Aproveitei para mostrar ao Carlos as minhas fórmulas matemáticas a respeito da complexidade da cultura e enquanto os flocos buliam os vidros da varanda e da janela do escritório, conversámos a respeito da extrapolação daquelas para aquilo a que chamo a teoria das circungirações e das similitudes entre as possibilidades de previsão num sistema como a atmosfera terrestre e as sociedades humanas. 



Tão em paz não estiveram os marroquinos que ontem foram vítimas de um violento sismo que assolou o norte daquele país e em que se registaram mais de duas centenas de mortos. 
A placa africana impondo o seu poder. 
Mas a ajuda internacional deu corpo à solidariedade que normalmente se forma nestes momentos de dor. 
Importa agora salvar os feridos, dar abrigo aos desalojados e reconstruir os tectos o mais rapidamente possível. 



Por cá é que vamos assistindo à pouca vergonha de vermos a impunidade das fraudes mais mirabolantes, como a que serviu para desviar milhões em projectos nas florestas de Trás-os-Montes que, para além de não terem qualquer efeito prático, chegaram ao cúmulo de transcenderem a área geográfica daquela província. É que os crimes prescreveram e, apesar das facturações falsas e dessas superfícies inventadas, nunca foi possível reunir provas para acusar a vigarice e levá-la a tribunal. 

Somos mesmo o país anedótico em que alguém como Santana Lopes consegue achar-se capaz de chegar à presidência da república. 
Será talvez por isso que o primeiro-ministro pode falar em vitória por temos contido o défice público nos dois vírgula oito por cento do PIB, quando se sabe que isso foi conseguido à custa de truques contabilísticos – os hospitais SA são o mais bizarro de todos – e à venda de património do estado, o mesmo que não foi capaz de cobrar impostos àqueles que teimam em não pagar ainda que o pudessem fazer. 
E lá anda o Vitorino em bicos de pés a ver se desenrasca a vidinha. 
Agora fala-se que o pequeno génio pode vir a ser o próximo comissário do Conselho Europeu. 
E o delírio é tanto que o nosso jornalismozinho o compara a Jacques Delors. Logo a começar pela força política dos países de origem, direi eu. 



Há massacres no Uganda. 
A comunidade internacional deveria intervir. 

E no Irão, sedento de vitórias, os conservadores cantam a vitória eleitoral. 



Amanhã reataremos o normal quotidiano do trabalho e da escola. 
Deus nos acompanhe a todos. 


 Alhos Vedros 
  25/02/2004

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (279)

Marinha, Lucília Fraga
Óleo sobre Madeira, 16 x24 cm


Lucilia Fraga nasceu em Caetité, Brasil, a 6 de Novembro de 1895 e faleceu em São Paulo, a 11 de Julho de 1979. Foi pintora, desenhista e professora.Ainda jovem mudou-se com a família para São Paulo, estabelecendo-se inicialmente em Jaú e alguns anos depois na capital, onde fixa residência. Aprende pintura com  Henrique Bernardelli no Rio de Janeiro e, posteriormente em São Paulo, continua os estudos artísticos com Pedro Alexandrino. Recebe ainda orientação do pintor Antonio Rocco. Foi professora de desenho na Escola Padre Anchieta, no bairro do Brás em São Paulo. Suas irmãs, Anita Fraga e Helena Fraga, foram também pintoras.  Pertenceu ao júri do Salão Paulista de Belas Artes em duas edições, 1949 e 1968. É mais conhecida pela sua pintura de flores, embora pinte também paisagens e marinhas.


Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

MUDANÇA GLOBAL DO CLIMA MANIFESTA NOS FOGOS EM PORTUGAL


A Poluição que mais provoca a Mutação climática a Nível mundial

António Justo

A natureza cada vez grita mais, deixando na paisagem as marcas da dor das populações e, no ar da recordação, a amargura do luto e do fumo. A felugem dos fogos cobriu os telhados das nossas casas, chegando a entrar por portas e janelas a avisar que o problema é de todos nós.
Cada vez mais nos tornamos testemunhas de períodos de seca alongados, instabilidades climáticas, fogos, ciclones e inundações. Incêndios monstruosos assolaram Portugal provocando 64 mortos em junho e 42 em outubro; na Galiza houve também 4 mortos e na Califórnia 31.
Temos que alargar o passo para acompanharmos a mudança e assim podermos mudar-nos com o clima, para podermos antecipar-nos a muitas das catástrofes e assumir novas atitudes e decisões.
É preciso dar-nos conta da mudança no clima. O Glaciares com o degelo das regiões polares, embora distantes, já se fazem sentir nas nossas praias com o aumento do nível do mar, com desertos e tempestades.
Observamos uma mudança na natureza que além de ser determinada pela radiação solar e fenómenos naturais, também se deve à maneira agressiva como o Homem se comporta em relação à sua companheira Terra e , além disso, a energia criminosa em acção.
O aumento da temperatura global torna-se decisivo nas alterações climáticas. O seu fator mais importante vem da produção de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono CO2 proveniente principalmente da queima de combustíveis fósseis, desflorestação, etc.

A mudança climática além das calamidades regionais, fortalece as desigualdades regionais existentes
.
O Katar produz 35,77 toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, por cabeça; a Arábia Saudita produz 17 toneladas, os EUA 16 toneladas, o Canadá 16 toneladas, a Alemanha 10 toneladas, Portugal 4,71 toneladas, Brasil 2,19 toneladas, Tanzânia 0,2 toneladas, Angola 0,16 toneladas. O dióxido de carbono ajuda a aumentar a injustiça que, embora favorecedora de alguns, é distribuída por todos.
O povo português, embora paciente, manifestou-se contra a avalanche dos incêndios e o governo reagiu com 11 medidas contra fogos; antes tinha havido o Relatório de Outubro 2017 sobre os incêndios e o puxão de orelhas do Presidente ao governo. 
Não chega mover os mecanismos de solidariedade, é urgente mudar de mentalidade. A plataforma eletrónica para gerir donativos às vítimas de Pedrogão registou grande solidariedade por parte dos cidadãos.  Resta, além da solidariedade com donativos muitas outra iniciativas  concretas a nível individual e colectivo, como plantar árvores, etc.
Quem desejar comparar as emissões de dióxido de carbono a nível mundial pode clicar aqui.
As mutações climáticas são de responsabilidade individual, nacional e mundial. A nível de poluição, os habitantes dos países mais pobres são os mais limpos, mas aguentam no corpo com as sujidades que advêm da nossa riqueza.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Espírito http://antonio-justo.eu/?p=4493

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

EG 93



ESTUDO GERAL
out/nov    2017          Nº93
"A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio." (Agostinho da Silva)

Sumário



terça-feira, 31 de outubro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

FÉRIAS DE CARNAVAL

Que mundo tão estranho, o nosso, feito do magnífico e do atroz, onde, nas Filipinas, ainda vivem oito milhões de crianças que trabalham para sobreviver, ao mesmo tempo que o robot “Spirit”, sob ordens electrónicas emanadas da Terra, perfurou dez centímetros da superfície marciana. 
Que mundo tão estranho, o nosso que ao mesmo tempo que se prepara para abandonar o planeta natal e um dia colonizar outros planetas, tão perto vive do limiar da extinção, como uma pequena chama que um vento traiçoeiro faz abanar. 



Portugal é que já não tem cura. 
Cada vez mais me convenço que o estado está sujeito aos diktats de máfias variadas, qual delas a mais predadora e perniciosa. 
E não vejo que no actual espectro partidário haja coragem e capacidade para cortar os tentáculos desta teia que acaba por formar uma espécie de super-polvo que tudo abafa e suga com a sua sede cleptómana.

Mas desde a queda do comunismo que as máfias de Leste têm provocado um choque de corrupção por todo o lado, especialmente no vizinho Ocidente europeu, onde os exemplos de escandaleiras na Alemanha e em França dão mote para algum pessimismo. 
E eu não tenho dúvidas que é aqui que reside o principal e o pior desafio que actualmente se coloca às democracias. 
É que os poderes mafiosos se não forem controlados e, preferencialmente, aniquilados, estiolam, por completo, o estado de direito e sem este não há democracia possível. 

Virá o nosso país a ser o paraíso do crime organizado? 



Só espero que a Margarida e a Matilde se preparem para fugir desta pátria madrasta. 



Bolas, a máquina fotográfica está avariada; não sei como nem porquê. Espero, isso sim que ela fique reparada até ao fim do próximo mês e nestes dias que vamos passar em Bragança, terei que me servir da máquina da Margarida. 
Faço votos para que as fotografias que tirei em Conímbriga tenham ficado boas. 


 Alhos Vedros 
  20/02/2004

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (278)

A Ponte de Moret, Alfred Sisley, 1893
Óleo sobre Tela  73,5 x 92,5 cm


O pintor franco-britânico Alfred Sisley, nasceu em Paris a 30 de Outubro de 1839.
Compartilhou com Monet, Renoir e Pissarro os anos de rejeição e incompreensão do impressionismo que, no seu caso, se manteve até à sua morte em 1899, enquanto os seus companheiros conheceram, ainda em vida, um êxito crescente.
Só a partir de 1900 começou a sua reabilitação pela crítica especializada e os seus quadros alcançaram importantes quotizações.
Manteve-se sempre fiel aos princípios do impressionismo como se pode observar no exemplo que apresento.

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 29 de outubro de 2017

GLIFOSATO: o Ambiente envenenado


Os interesses da humanidade devem tornar-se os nossos interesses. O interesse pessoal deve ser transformado em interesse colectivo. 

Tudo o que atinge o homem, não só na nossa época, mas no decorrer de toda a evolução terrestre, deve despertar em nós o mais profundo interesse… temos que sentir tudo o que tem a ver com a evolução da Terra como um assunto pessoal…


Apesar do apelo da ANIPLA (Associação Nacional da Indústria para a proteção das Plantas) ao Ministro da Agricultura para o voto positivo de Portugal (que acabava ontem), ver aqui:
http://www.ambientemagazine.com/glifosato-anipla-apela-ao-ministro-da-agricultura-o-voto-positivo-de-portugal/


os partidos PSD, PS e CDS-PP chumbam iniciativas de rotulagem e fiscalização de OGM, ver aqui:https://www.dn.pt/lusa/interior/psd-ps-e-cds-pp-chumbam-iniciativas-de-rotulagem-e-fiscalizacao-de-ogm-8859598.html


mais do que os ideais, as acções falam por si.....
temos todos a obrigação de estar cada vez mais atentos e conscientes do que se está a passar.

Abraço,

~Paz&Luz~
Paula Soveral

sábado, 28 de outubro de 2017

Acidez no estômago


Muitas pessoas se queixam de acidez no estômago.
Uma das principais causas é a alimentação.

Os principais alimentos que causam acidez são: Açúcar e produtos refinados (pão, bolachas, bolos, pizzas... feitos com farinhas brancas e de má qualidade, massa e arroz branco, etc), alimentos processados, refrigerantes, tabaco, café, álcool, frutas ácidas, excesso de lacticínios não fermentados (note-se que os alimentos fermentados, os chamados probióticos,  não causam acidez e são benéficos para a saúde a todos os níveis).


O stress também não é bom conselheiro :)
É necessário:
1) fazer uma alimentação equilibrada baseada em vegetais (cozidos ou escaldados) e inserir regularmente/diáriamente arroz integral e millet.
2) Mastigar bem e comer com calma.
3) ter uma rotina diária sem stress.


Uma das outras possíveis causas é a presença da bactéria H. pylori  (uma das bactérias mais difíceis de controlar) que é, muitas vezes, responsável pela acidez e dores de estômago. A maioria das pessoas tem esta bactéria em desequilíbrio excessivo sem o saber.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O Mercado de Diamantina


Duetos luso-brasileiros
Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos




Lembro-me das bandeiras que marcavam as fronteiras
e sim, do mercado de escravos no Arraial do Tijuco
da água de coco, dos guaranás e do guarani
do santificado António Vieira 
de uma inquisição que não era santa
do meu próprio irmão arrastado em leilão,
e da carta de alforria daquela dela pele baça, nua, 
diamantina presença, nas suas doces linhas juvenis, 
do seu colo na luz do luar;

e dos trabalhos na roça
dos quadris dobrados e dos trabalhos forçados 
das poças de água suja em que se lavavam as loiças
dos tropicais suores que lhes escorriam pelo rosto 
no coração de minas das pedras preciosas,
e daquela rocha dura, dura
de um brilho que cortava o vidrado solar do dia
em que seguiam os arrepios da febre e dos pés na barriga
a curar o reumático do seu senhor;

e eu, e tu, aqui outra vez, de vez e em português, 
sem amos, sem fim!

24/10/2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ruínas-Mercado Romano de Troia


A Festa Popular do Património

(contributos para o estudo e realização de uma animação performativa em património edificado e cultural)
por José Gil e Sandra Cordeiro

RESUMO:
Com esta Comunicação procuramos abordar uma experiência no campo do Património (Tróia Romana) de Animação Teatral na Zona das Termas durante um Mercado Romano encenado em abril de 2017 com estudantes de APPC da ESE/IPS de Setúbal Curso de Animação.
Objetivos: (1) Conhecer a vida na zona termal das Ruínas Romanas de Tróia (2) Estudar os modos de vida das senhoras e das escravas, do Imperador e Imperatriz, do Poeta Ovídeo e da sua Musa.(3) Preparar seis cenas de ações teatrais performativas em território patrimonial com estudantes do 2º ano da UC APPC – Animação Património Promoção Cultural .
Metodologia: os instrumentos de criação e investigação são sobretudo digitais. Falamos também com uma das organizadoras do Mercado Romano que se deslocou à nossa aula e escola. Estudámos também os flyers, folhetos e sites de divulgação do evento. Realizamos seis cenas (dinâmicas) para a representação envolvendo estudantes e docentes.
Resultados: os resultados foram muito interessantes. Destaco o primeiro (1) A Animação Teatral cumpriu o seu objetivo interagindo com o público apesar da ausência de palavras na performance por problemas óbvios do teatro ao ar livre em espaço aberto e conservado cuidadosamente como património. O público raramente era fixo ou se sentava nas pedras, passava pelas zonas que desenhamos para nós como palcos. Adotamos dois territórios. Um em baixo junto ao público onde eram as termas e as massagens para as senhoras. Numa área mais alta ficou o Imperador e a Imperatriz e depois o poeta e a Musa. O segundo resultado (2) Foi uma passagem do Imperador e da Imperatriz pelas zonas do público Mercado Romano, “quinta” Romana com animais vivos (cotovias, falcões). Fomos ainda nesta peregrinação ao Museu São Miguel de Odrinhas .Onde estivemos no “céu” com o sol e a lua.
Conclusões: seria positivo em novas intervenções patrimoniais realizar ensaios com Guarda-Roupa e adereços no local próprio. Tudo correu da melhor maneira. Estamos gratos aos estudantes e à organização.
Palavras-Chave –Património-Animação-Teatro-Poesia-Ruínas Romanas Termas Tróia.

  1. Introdução
Garum é a palavra chave do nosso mistério. Magia da luz do nosso trabalho criativo. Molho de peixe muito especial, na Tróia Romana, utilizado na gastronomia e no vinho e como óleo nas massagens e tratamentos termais.
Celebramos nesta Festa do Garun a Deusa Flora no maior território de salgas de peixe.
No Mercado  Romano encontrámos vários produtos regionais e nacionais e até de outros povos e culturas distantes.
Nas suas típicas tabernas de sabores muito antigos encontramos o hidromel, o porco no espeto, provamos os crepes salgados , o vinho e a sopa de “entulho”.
Nas bancas dos vendedores peças artesanais de ferro e cerâmica, bijutarias e coroas de flores.
Descobrimos também frutos secos, doces e mel e apreciamos a música, as danças e a animação. Num espaço que hoje poderíamos denominar de Quinta Romana havia animais vivos com os quais brincamos e  tiramos fotografias .
Foi  da surpresa do significado do termo  Garun na “boca” das organizadoras do evento Mercado Romano presentes numa das nossas aulas em Março de 2017 que iniciamos esta narrativa comunicacional . Evento que foi oleado por esse garun mágico na preparação da Performance no Património.
Tróia perto da Páscoa tem a sua Festa Popular do Património na Zona Termal das Ruínas.
Justificamos assim o título. Centenas de pessoas passam num fim de semana intenso de Mercado e espetáculos em terra e no rio por esta Celebração à Deusa Flora.
O Património assume-se por um dia o foco de visitantes de Setúbal e Grândola mas também de todo o país e estrangeiro.
Poesia destas populações de uma peninsular junto ao azul é uma Jornada histórica teatral e de animação comunitária numa viagem na linha do tempo Como contar numa encenação das vidas quotidianas os hábitos, a gastronomia, os figurinos e os ambientes romanos. Trabalho de rigor e brilhantismo saudável.

2. Enquadramento
Esta participação enquadra-se na Unidade Curricular APPC – Animação Promoção do Património Cultural que ambos lecionamos no ano de 2016-2017. No 2º Semestre, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal que sendo uma Opção apresentou de início dificuldade de número de participantes.
Pretendeu-se que o estudante possa nesta UC adquirir competências ao nível da:
a)
Organização e gestão de informação (baseada no levantamento e identificação de indicadores culturais, das estruturas sociais e comunitárias existentes);
b)
Apropriação e utilização de conceitos diferenciados (que permitam identificar as especificidades e “pontes” entre, nomeadamente, cultura, educação, arte, desenvolvimento);
c)
Compreensão dos fatores que orientam a fruição cultural (consumo cultural);
d)
Apropriação de conhecimentos práticos, utilizadas na animação do património cultural; História ao Vivo, Museu Aberto, Animação da Escrita Criativa, Poesia, património imaterial…

A unidade curricular de Animação e Património Cultural procurou articular o domínio da animação sociocultural com as inúmeras vertentes de que se reveste o património cultural (nas suas dimensões materiais e imateriais), de modo a conduzir a uma consolidação de conhecimentos e práticas específicas, passíveis de serem aplicadas na promoção, divulgação e preservação do mesmo.
Neste sentido, os conteúdos programáticos abordados visaram dotar os estudantes de conhecimentos ao nível conceptual e a possibilidade de os operacionalizar na análise de situações concretas, estruturando-se em três níveis complementares:
1.No primeiro bloco programático foram abordados um conjunto diferenciado de conceitos-chave que intervêm na definição, compreensão, legitimação e fruição/ consumo de património cultural – entendido nas suas inúmeras configurações;
2.O segundo bloco incidimos sobre as metodologias de animação do património cultural atendendo à articulação e operacionalização dos conceitos anteriormente discutidos a contextos de atuação concretos, considerados nas suas diversas modalidades
3.O terceiro bloco dedicamos à exploração prática de técnicas e processos de seleção de recursos humanos e materiais, que possam apoiar a animação em contexto, de atuação concretos, considerados nas suas diversas modalidades
Através da articulação entre conceitos, o contacto com situações reais e a produção de elementos de apoio à animação foi possível a apropriação, reflexão/debate, gestão, operacionalização de conhecimentos e metodologias de atuação na realização de trabalhos dirigidos à intervenção em contextos de ação.
2.1. Conceitos
Como sabem o conceito base de património tem origem na palavra Pather  (pai) com  o significado de conjunto de bens de família partindo da herança pais filhos.
Segundo a Lei de Bases do Património, nº 107 /2001 de 8 de setembro, “(...)integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objeto de especial proteção e valorização.” bem como“ Todos os bens materiais e imateriais que constituem testemunhos culturais ou civilizacionais de interesse relevante (histórico, paleontológico, arqueológico, arquitectónicos linguístico, documental, artístico, etnográfico, científico, social, industrial ou técnico).E que reflitam valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade.”
CONCEITO DE PATRIMÓNIO Cultural e IMATERIAL
Segundo Ana Carvalho (2011) “A expressão património cultural e imaterial foi evoluindo ao longo de décadas de discussão no seio da Unesco(…) e mediante um processo evolutivo foram-se incorporando novas dimensões ao Património (arquitetura vernacular, industrial , património natural, entre outras), conferindo-lhe maior complexidade. Por outro lado, uma conceção antropológica do património cultural tanto as expressões imateriais tais como o saber fazer, a tradição oral entre outras como os monumentos, sítios bem como o contexto social e cultural nos quais se inscrevem, contribuiu de certo modo, para se alcançar uma noção de património mais alargada, diversificada e reveladora, muitas vezes de relações de interdependência.”

CONCEITO DE TEATRO
“Segundo Jorge Luís Rodrigues
Teatro é por exemplo: num palco, preparado para tanto, se recitam perante o público (plateia) textos dialogados; o gênero literário desses textos; em sentido mais amplo, a instituição inteira, integrada pelo autor, diretor de cena, atores, cenógrafos e outros colaboradores. A arte dos atores e do diretor de cena não sobrevive à representação; os textos ficam.”(4)
CONCEITO DE ANIMAÇÃO
A base da formação destes estudantes inscreve-se no campo da Animação Sociocultural, tendo Ander - Egg definido como“(...) um conjunto de práticas sociais que têm como finalidade estimular a iniciativa e a participação das comunidades no processo de seu próprio desenvolvimento e na dinâmica global da vida sociopolítica em que estão integradas.”
As metodologias trabalhadas maioritariamente “(...) expressam um projeto pedagógico de consciencialização, de participação e de criatividade social em que cada participante conforme as suas próprias perspetivas ideológicas, políticas e científicas assim como a sua própria prática poderá escolher ou rejeitar.”
(UNESCO, in Ander-Egg Ezequiel, 2000:107)

OBJECTIVOS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
Nesta Unidade Curricular semestral os fins convergem para os Objetivos de Educação Patrimonial, os quais segundo Ana Duarte (1994) “os objetivos pretendem:
-Desenvolver atitudes de preservação e animação do Património;
-Conhecer o património local para compreender o património nacional e universal “da Humanidade”;
-Incentivar o gosto pela descoberta.”


3. Práticas e Reflexões
APRENDIZAGEM PELA DESCOBERTA
Tendo em consideração os objetivos da Unidade Curricular vulgo Disciplina reunimos com as estudantes as propostas de atividade. Pelo fazer e refletindo sobre o realizado avançar nas aprendizagens e tomado consciência de novos conhecimento individual e de grupo.
O teatro e a Animação têm essa vantagem são práticos. Ou se fazem ou não se fazem. Perguntou uma vez um ator jovem a um ator experiente o que é que pode acontecer 5 minutos antes de começar a peça – o espetáculo. E ele disse muito nervoso e com muita ansiedade de conhecer novos públicos. O velho ator costumava espreitar por um buraco pequeno na flanela da moldura do palco da sua cidade.
O outro ator respondeu. A única coisa que pode acontecer e por isso não fico ansioso nem nervoso é a minha capacidade de entrar ou não entrar no palco e na performance.
Esse foi também o desafio constante que colocamos ao nosso grupo de aprendizagem de APPC e é uma verdade de La Palice. Ou participamos ou não participamos.
O desafio colocado às estudantes partiu da perspectiva de uma aprendizagem pela descoberta. “Em que aprender é construir significado e a aprendizagem consiste na seleção e organização a partir das sensações que nos rodeiam (Silva e Filipe) – à partida na primeira aula conjunta e como estávamos no dia dos namorados – 14 de fevereiro lançamos poemas diversos de namoro ou amor e solicitamos às jovens que escrevessem para uma Primeira Atividade com público na Biblioteca Municipal do Pinhal do Novo no Dia Mundial da Poesia 21 de Março 2017. Nesta comunicação refletimos sobre práticas textuais e teatrais da criação, práticas de escrita criativa. Escolhemos o poema de Cecília, estudante de 21 anos, de Erasmus Brasil-Mobilidade Internacional.
Segundo Barriga e Silva, “(sem data) Nas últimas décadas temos vindo a caminhar da Sociedade da Informação para a Sociedade do Conhecimento e da Aprendizagem, o que implica uma importante passagem da campanha pelo acesso à informação, ao campo, mais exigente, da responsabilidade individual e coletiva na utilização dessa mesma informação e na criação de ambientes para a verdadeira promoção da aprendizagem e do conhecimento como ferramentas essenciais ao desenvolvimento.
Porque ter acesso à informação não é necessariamente sinónimo de aprendizagem, esta mudança de paradigma promove cada vez mais a consciência de que os indivíduos são ativos na sua construção de conhecimento e de que os equipamentos culturais e educativos têm um papel fundamental a cumprir neste campo. Enquanto instrumentos para a criação de espaços democráticos e inclusivos de acesso, construção e debate do saber, as instituições e projetos culturais cumprem ainda a dupla função de responder às exigências de lazer e fruição da sociedade de consumo contemporânea.”
Foi em jeito de percurso pelas leituras de vida que algumas estudantes selecionaram os autores e partilharam a importância dos educadores na criação do gosto; estes espaços de relação com o eu e o outro são muito importantes para a criação de processos performativos integrados e com significados únicos nas aprendizagens e competências.

4. Literacias Práticas e Princípios de Aprendizagens 
Partindo dos anteriores conceitos de património, teatro e animação tentamos desenvolver o nosso percurso pedagógico na interdisciplinaridade entre a Animação e o Teatro nas perspectivas da Educação Formal, Não formal e Informal – há um desafio pedagógico na conjugação de competências e aprendizagens que as práticas teatrais, poéticas de participação e de relação interativa com públicos potenciam uma formação e uma literacia global dos estudantes. O que transmite o património à comunidade nomeadamente neste caso a zona termal das Ruínas Romanas de Tróia com diversas personagens em 6 ações de  movimento e gestualidade mímica ilustrada pelo guarda-roupa e pequenos adereços, que transportam para possíveis cenas de quotidiano do lugar, no período romano. 
Segundo S. Silva , “A opção de utilizar os museus como lugares propiciadores de aprendizagens significativas implica, assim, por parte dos educadores, a construção de estratégias para uma exploração estruturada capaz de conduzir ao desenvolvimento de competências exploratórias efetivas que confiram uma razão e um sentido ao que se vê e se experimenta. A utilização de elementos lúdicos é uma estratégia de desenvolvimento da curiosidade e sentido de descoberta potenciadora de aprendizagens efetivas. A aprendizagem lúdica tem efeitos duradouros e propicia memórias significativas na experiência dos participantes, estimulando a sua criatividade e capacidade de responder aos desafios. Associada ao universo do prazer ,a abordagem lúdica permite a construção de uma relação de familiaridade que potencia a inteligência emocional.”
São exemplos os projetos de animação do património, que visando ampliar o nível de literacias dos participantes pelas ações e processos de teatro e animação.
As noções de património têm vindo a evoluir de acordo com as práticas de animação dos respetivos serviços educativos dos museus.
Ana Duarte refere “(1994) Um Museu não pode ser túmulo da memória, mas sim a solicitação activa da memória, senão mesmo a memória viva. (...) Mais do que nunca, nos dias de hoje, o museu deverá problematizar, questionar, intervir...há um conjunto de relações que se vão estabelecendo e, com o decorrer dos anos, o ato de educar pode, ser fruto de uma equipa muito vasta da qual o museu faz parte.”
Com a publicação da Lei Quadro dos Museus Portugueses e a concomitante definição do conceito de museu, é estabelecida a função de “educação” como uma das basilares funções museológicas, plasmando o art.ºº. 42.º daquela lei a obrigatoriedade de o museu desenvolver “de forma sistemática programas de mediação cultural e atividades educativas que contribuam para o acesso ao património cultural e às manifestações culturais.” O ponto 2 do mesmo artigo refere que “o museu promove a função educativa no respeito pela diversidade cultural tendo em vista a educação permanente, a participação da comunidade, o aumento e a diversificação dos públicos.” Os princípios presentes no anterior enunciado remete para um entendimento muito amplo da função de educação no museu, numa perspetiva de educação permanente e de interligação com a problemática da relação com os públicos, consubstanciando-se no artigo seguinte da lei a questão específica da articulação com o sistema de ensino
As nossa área museológica a intervir inscreveu-se nas Ruínas Romanas de Tróia,  complexo de excelência para recreação do mundo romano e o seu conjunto está classificado como monumento nacional desde 1910 e desde 2011 voltaram a funcionar com várias atividades de serviço educativo, dinâmicas em que se integram o Mercado Romano.
O núcleo visitável inclui uma zona residencial, termas, necrópoles, um mausoléu e uma basílica paleocristã, inseridos no maior complexos de produção de salgas de peixe do mundo Romano, convidados a recuar até ao século I d.C..
Atualizar com a poesia e o teatro o conceito de património é contribuir para a sua melhor preservação e defesa fazendo emergir uma partilha e interação constante com os seus visitantes e espectadores ativos durante todo o ano.
Viver o que os nossos antepassados viveram – as personagens das suas épocas e o nosso humilde contributo com a poesia e a animação teatral
Entendemos como Quadro Vivo a construção das personagens de um quadro/pintura ou de uma escultura com atores ao vivo com um guarda –roupa rigoroso e um cenário do ambiente de fundo da pintura.(aplica-se este conceito a espaços interiores como Museus de Pintura ou Pintores ou a espaços de Galerias de Arte com pintura ou escultura).
Entendemos também como Quadro ao Vivo uma situação de animação teatral num monumento e no seu exterior uma praça ou um mercado por exemplo em que os performers ou atores desenvolvem uma situação que é “espelho” “imagem parada” num espaço determinado em que todo o corpo, mãos, pernas rosto “congelam” como se fossem esculturas vivas antes ou depois de um pequeno movimento. Como uma sucessão de “fotogramas”
Antes de Tróia APPC esteve em Palmela no Pinhal Novo, no Dia Mundial da Poesia a convite da Biblioteca Municipal num Atelier de Escrita Criativa e Performance:
O trabalho foi ensaiado nas aulas e nasceram os primeiros escritos de que sublinhamos um poema de uma Jovem Erasmus – Mobilidade Internacional-Brasil Cecília de 21 anos. Partimos do Dia dos Namorados (14 de fevereiro de 2017) para poemas de enamoramento e amor.
À partida na primeira aula conjunta e como estávamos no dia dos namorados – 14 de fevereiro lançamos poemas diversos de namoro ou amor e solicitamos às jovens que escrevessem para uma Primeira Atividade com público na Biblioteca Municipal do Pinhal do Novo no Dia Mundial da Poesia 21 de Março. Escolhemos o poema de Cecília, estudante de 21 anos, de Erasmus Brasil-Mobilidade Internacional: 

Quadris
Balançando ao som da canção
Entre contração e convulsão
Os passos consoados vão desenhando a dança

O movimento dos quadris aos poucos revela
A sedução velada que o corpo não nega
Mas esconde do tabu instituído e velado

O corpo fala enquanto a mente consente
Com as regras infundadas, mas conscientes
E funciona como escape para o real desejo

E quando liberto o corpo explode
Extravasa, respira, suspira, transborda
E revela a verdadeira essência da carne”

Cecília, 21 anos

Há 5 ou 6 Pressupostos da facilidade ou dificuldade de iniciar a escrita pelos estudantes
1 – Professor, eu não escrevo sobre isso (vergonha);
2 – Professor, eu não sou capaz (medo);
3 – Professor, o poema, a representação ainda não está pronta, preciso de voltar a reescrever, só mais uma versão um novo ensaio amanhã e depois (perfeccionismo);
4 – Professor, se escrevo assim sobre esse assunto cai-me logo o mundo em cima (culpa);
5 – Professor, eu já escrevi muito, já escrevi muito eu sou muito melhor que os meus colegas (arrogância);
6 – (…)
“Património é poesia” (2) Poesia é Património
Podíamos dizer que de todo o Património emerge a poesia como de toda a escrita teatral faz-se um novo património
Por isso desenvolvemos a 4 cena das dinâmicas teatrais com uma performance em mímica muito simples entre o poeta romano Ovídeo e a sua Musa. Como não podíamos utilizar a voz na representação sentimos interiormente a poesia de. Ovídeo que aqui sublinhamos:

Musica
Dos ensinamentos que me resta dar
Já me sinto corar
Mas diz-me a benévola Dione
“ o que causa vergonha, eis a nossa tarefa”
Que cada uma de vós a fundo se conheça
E escola a atitude
Que mais harmonia com o corpo lhe pareça

Ovídeo”

5. Aprendizagem pela Descoberta, Escrita Criativa e Património
Temos que cuidar, preservar, recuperar o património. Mas também temos que deixar o nosso património presente às gerações futuras. Por isso a escrita criativa no Património, com o Património de forma Performativa.
Apostar na Promoção uma das palavras chave de APPC.
Tentar obter um visitante um espectador não passivo do património neste caso edificado.

6. Animação Teatral
As SEIS DINÂMICAS
  1. Cena de senhoras e escravas nas Termas – Massagens;
  2. Cena das senhoras e escravas nos Jogos;
  3. Passeios das senhoras e escravas na zona das Termas;
  4. Imperador e Imperatriz a observar o povo de um ponto mais alto;
  5. Poeta Ovídeo e Musa;
  6. Imperador e Imperatriz visitam o Mercado Romano, a “quinta” Romana com os seus animais vivos exóticos e de caça  e o Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas no meio do público.
Utilizamos guarda-roupa própria e alguns adereços como os óleos e as bolas de trapo.
O Mercado Romano de Tróia é anual na Freguesia do Carvalhal –Concelho de Grândola
Ações Teatrais sem palavras, mímica rústica como uma aguarela interagindo com o público apesar da ausência de palavras na performance por problemas óbvios do teatro ao ar livre em espaço aberto e conservado cuidadosamente como património.
Desenhar o teatro como um esquiço a carvão saindo da tela.
O património edificado ao ar livre é como uma pintura que se derrama para fora de qualquer moldura.
O público raramente era fixo ou se sentava nas pedras, passava pelas zonas que desenhamos para nós como palcos. Adotamos dois territórios. Um em baixo junto ao público onde eram as termas e as massagens para as senhoras. Numa área mais alta ficou o Imperador e a Imperatriz e depois o poeta e a Musa. O segundo resultado (2) Foi uma passagem do Imperador e da Imperatriz pelas zonas do público Mercado Romano., “quinta” Romana com animais vivos (cotovias, falcões).Fomos ainda nesta peregrinação ao Museu São Miguel de Odrinhas .Onde estivemos no “céu” com o sol e a lua.

7. Raízes Culturais e Património Familiar Pessoal
Focando na ESE, e concretamente no nosso trabalho nesta UC – APPC -  não podemos deixar de ser difusores de instituições projetos atividades como facilitadores de aprendizagens na história, na poesia e nas artes que foram comuns na raiz e nas famílias individuais de cada um dos estudantes.” Não se pode escamotear que eventos ou ações com componente cultural são percepcionados de forma negativa [junto dos estudantes] nem contornar o facto de estas percepções sendo relativamente distintas dentro de diferentes classes e estratos sociais.
“As importâncias dos fatores familiares condicionam atitudes perante a cultura e as artes também os contextos que envolvem a família, amigos e professores. Hábitos familiares de práticas culturais, lacunas de informação receio do que é desconhecido agravam a distanciação dos jovens. Não estamos só perante barreiras físicas mas também psicológicas e sociais, que advém da percepção que a cultura e a arte ou são irrelevantes ou podem mesmo constituir fator de exclusão junto do que é valorizado pelos segmentos jovens.
“A inclusão cultural implica atribuir um papel mais reforçado no desenvolvimento de competências criticamente construídas de ver, ouvir, ler, dramatizar, improvisar, representar e de construir sentido”
Segundo Susana Gomes da Silva, “(2006)as atividades educativas necessitam de envolver a mente (minds-on) tanto quanto as mãos (hands-on) e de permitir a produção de uma reflexão sobre a prática realizada, sobre o que se aprende e como se aprende. A organização das atividades em torno de conceitos-chave e a conceção de projetos educativos que constituam desafios (colocando problemas e levantando questões) e que impliquem uma participação directa dos participantes na resolução desses «problemas» são formas de enriquecer a experiência educativa. Participação que se faz também pelo envolvimento dos sujeitos nas tarefas potenciando a inteligência emocional e afetiva (hearts-on). Só assim a trilogia da aprendizagem se completa: aprender-fazendo (hands-on), fazer-pensando (mindson), pensar envolvendo-se (hearts-on).”
É este o desafio que pretendemos ganhar na formação dos animadores socioculturais pois só com vivências e convivências significativas nos vários âmbitos da Animação Sociocultural conseguiremos habilitar futuros profissionais numa missão  de desenvolvimento de projetos com as comunidades e as pessoas. Pois é neste caminho de  “(...)Lançar desafios e questões, fazer uso dos vários sentidos, desenvolver diferentes tarefas, criar diversos objetivos (diferentes pontos de partida para múltiplos pontos de chegada), comparar fontes diferenciadas é permitir e potenciar diferentes estilos e perfis de aprendizagem, promovendo a entreajuda, a tolerância, a inclusão, a complementaridade, a criatividade e a cidadania ativa.
Living History
O conceito de História ao Vivo (Living History) forma de encenação da vida quotidiana de qualquer sociedade que se pode teatralizar e fazer espetáculo teve a sua época e moda e ainda sobrevivem algumas (poucas) experiências de rigor histórico, de pesquisa do traje e dos cenários de determinado período ou época social.
Temos contudo alguma resiliência à utilização massiva e sem critério rigoroso e histórico de Feiras e Mercados Medievais em todo o país é preciso virar a página nesta paralisia criativa estudando outras épocas e fazendo uma reflexão fértil sobre a história dos locais. (diz-se quase como anedota atual  que hoje em Portugal existem mais Feiras Medievais do que na Idade Média).
Os anos 80  e 90 do século XX foram pioneiros da metodologia de trabalho de projetos Living History os quais preconizavam um trabalho profundo de relação curricular e aprendizagens pelas recriações históricas, tendo sido pioneiros os distritos de Faro e Setúbal, após colóquio da APOM em 1986. Ana Duarte(1986) refere ainda , toda a abordagem de um tema passa, também por uma intervenção no meio e a formação de uma opinião pública. A educação cívica é, neste caso essencial pois impõe regras de acesso e fruição do património e não há público mais entusiasmado que um grupo de jovens que tenham participado sistematicamente nestas áreas.”
O abrandamento desta metodologia de formação e animação pelas escolas, em contextos de educação formal, gerou um novo ciclo de recriações pelas artes de palco e de guerra, gerando um novo formato de criação de eventos culturais e turísticos, muitos replicados sem fundamentos históricos e relações com as comunidades locais, mas que se replicam de forma massiva como feiras de períodos marcantes na história nacional, em cenários de monumentalidade. É exemplo de referência a Viagem Medieval por Terras de Santa Maria da Feira, como a emergência de um mercado para as artes – que diretamente introduz o conceito de públicos massificados e com ele a democratização dos produtos histórico artísticos.
Em termos formativos e de conhecimento do património pelas artes e animação, é muito importante para futuros animadores socioculturais poderem contactar com as equipas de produção dos eventos, assim como fazerem parte dos diferentes quadros animados em contextos patrimoniais, mas as aprendizagens mais significativas são inscritas em processos curriculares formais.

8. Conclusão
Em educação somos tentados sempre a avaliações das Unidades Curriculares por fases. Nesta UC Animação Património e Teatro somos tentados a “adivinhar “projeções da avaliação na linha do tempo dos percursos profissionais dos estudantes.
Há necessariamente que avaliar que aprendizagens e competências  ao nível  da expressão artística, comunicação com público, noção de património e de “sociedades” da informação com espetáculo.
Esta experiência de APPC concretizou-se num semestre, numa primeira edição, como tal será fundamental dar-se continuidade à participação e implicação dos estudantes em futuros eventos nas comunidades.

9. Nota Final
Para terminar um especial agradecimento à equipa Organizadoras em Troia. Que continuem este excecional convívio dos espectadores com o Património. Todos os anos algumas centenas de novos públicos. Bem Hajam.  Uma palavra de especial  gratidão aos estudantes que participaram.2º Ano da Licenciatura de Animação e Intervenção Sociocultural - UC de Opção. E a todos os outros estudantes da mesma licenciatura que apoiaram e enquadraram os colegas. Palavra final com uma citação:
“Ser radical é aprender as coisas de raiz” [9]. Pode-se ainda contrapor a valia do desejo de aprender e conhecer coisas novas, o que permite dispor de informação mais completa, para que o “consumidor” cultural se transforme também em “produtor” da atividade promovida, e se sinta gratificado com essa experiência.
Queremos estudantes criadores “produtores” de atividades ou eventos como hoje se diz na linguagem comum. Sempre valorizados pelas novas experiências.

Notas
  1. (Professores da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal -José Gil tb. Diretor Teatro Porta a Porta –T.P.IPS)
  2. Fórum em Évora 2016-http://contemporanea.pt/agosto-setembro2016/16/ captado em 27-8-2017
      3. Karl Marx, citado em “Contributions à la guerre en cours”

Referências Bibliográficas
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Vários PRAÇA, J. Henrique (2007), «Serviços Educativos na Cultura», Setepés, Porto.