quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ainda sobre as origens de Alhos Vedros e região circundante


por Luís Santos

Embora sem documentos escritos que o comprovem, sustentamos que Alhos Vedros terá nascido, pelo menos, lá para os inícios da Nação, tendo como referência o ano de 1205, quando D. Sancho I, filho de D. Afonso Henriques, conquista definitivamente a vila de Palmela aos mouros.

Para além desse ano, ou um pouco mais à frente, abre-se um hiato no tempo que não nos possibilita ir mais além na história do povoado. Isto porque, pelo menos por agora, quer em termos históricos, quer arqueológicos, não dispomos de dados que o permitam comprovar.

Como sabemos, até que Portugal se estendesse do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve, o território esteve ocupado por povos árabes durante mais de 500 anos. Esses povos chegaram à Península Ibérica no início do século VIII, mais precisamente no ano de 711, e a ocupação de território português estendeu-se até à data da conquista definitiva do Algarve por D. Afonso III, em 1249.

Até agora, as investigações arqueológicas feitas em Alhos Vedros e região circundante não encontraram vestígios que nos possam fazer prolongar com segurança a ocupação humana deste lugar durante o período árabe. Assim, até prova em contrário, o nome de Alhos Vedros, tal como dos lugares próximos que hoje constituem o Concelho, só se podem referir depois da cristianização destes lugares.

 Mas, embora só nos seja permitido alargar a história de Alhos Vedros até meados do século XIII, e mesmo assim só por palpite, porque a partir de documentos escritos só a partir do final do século, muitos são os dados arqueológicos que dão conta do povoamento da região em datas mais recuadas. Nas pesquisas arqueológicas que se têm feito um pouco por todo o Concelho, muitos são os vestígios encontrados que apontam para uma ocupação deste território, pelo menos, até ao Paleolítico, ou seja, há 30 mil anos atrás. Como diz António Gonzalez, “Na campanha de prospeções sistemáticas do Concelho da Moita e na zona da Baixa da Banheira na península denominada Ponta da Passadeira encontrámos os vestígios de uma raríssima e bem conservada olaria do neolítico antigo evolucionado (3.000 AC) sob a qual um acampamento do paleolítico médio (cerca de 30.000 anos AC) torna o local ainda mais digno de interesse.”*

A título de mais um exemplo sobre o antigo povoamento da região, entre outros possíveis, referimos o sítio arqueológico do Gaio, onde uma intervenção conduzida sob a égide do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, nos dá conta de vários achados arqueológicos de grande importância para a região. Citando, “Uma das contribuições mais relevantes do estudo de ocupação neolítica do Gaio reside no facto de se ter exumado uma indústria em pedra lascada bem contextualizada e datável do Neolítico antigo evolucionado.”**

Podemos, pois, concluir que embora se saiba que o povoamento desta região remonta há muitos milhares de anos atrás, só é possível falar com segurança da existência do nome de Alhos Vedros a partir do século XIII, já que os documentos escritos mais antigos datam deste período. Muito provavelmente, só a insistência em estudos arqueológicos nos poderá trazer novas informações para o futuro.


* GONZALEZ, António, Prospecções arqueológicas em locais de obras no Concelho da Moita e seu acompanhamento, in I Jornadas de História e Património Local. Edição Câmara Municipal da Moita, 2004, p.64.


** SOARES, Joaquina, SILVA, Carlos Tavares, GONZALEZ, António, Gaio: Um Sítio do Neolítico Antigo do Estuário do Tejo, in I Jornadas de História e Património Local. Edição Câmara Municipal da Moita, 2004, p.58

4 comentários:

Diogo Correia disse...

Amigo Luis!

Alhos Vedros tem de facto muita historia. Talvez quanto mais avançemos no tempo, mais avanço haja no conhecimento do nosso passado cada vez mais remoto.

Bom estudo ;-)

Abraço
Diogo

luis santos disse...


É verdade amigo Diogo. A arqueologia tem essa coisa boa: nós avançamos no tempo e ela ajuda-nos a perceber o passado, o que fomos, o que fizeram os nossos avós, etc.

Em síntese, ajuda-nos a perceber o que é o Homem, quem é Portugal, o que é o mundo... E, obviamente, pode ajudar muito a construir o futuro, assim haja vontade e habilidade para isso.

Aquele Abraço.

Manuel Henrique Figueira disse...

Luís:
Belo texto, claro, conciso e sem erros de português, coisa rara nestes tempos.
Parabéns.
Manuell Henrique Figueira

lui santos disse...


Caro Manuel,
Obrigado pela atenção, mais uma vez.
Aquele Abraço.